segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Quase amores



Tem gente que passa pela nossa vida e, apesar de se tornar especial, pelo capricho de um quase, não se torna um amor completo.

Todo mundo já teve um quase amor. Uma pessoa que conhece na faculdade, no trabalho, na academia ou, sei lá, em qualquer outra ocasião. Geralmente alguém com quem convive diariamente. E, ao se aproximar devagar, vai conquistando a confiança.

Na maioria das vezes um quase amor é comprometido. A pessoa é casada ou namora há bastante tempo. Talvez isso é o que faça com que o amor fique só no quase.

As coisas acontecem aos poucos. Os sorrisos bobos começam a surgir. Mensagens são enviadas e recebidas aos montes. Os bilhetinhos carinhosos aparecem nos lugares mais inusitados.

A caixa de entrada do email enche. São links de filmes ou clipes de músicas. As ligações se tornam diárias. Controlar-se fica difícil. Tudo vira motivo para falar com a outra pessoa. Todo filme, toda música, enfim, tudo lembra ela.

Com os quase amores são planejados os sonhos mais loucos. E as fantasias mais românticas tomam conta da imaginação.

Muitas vezes a atração sexual é o de menos. Apesar de passar as madrugadas conversando sobre tudo, de forma muito inspiradora e intensa, o sentimento se transforma em algo tão romântico que o sexo é (quase) colocado em segundo plano.

Infelizmente (ou felizmente) os quase amores não dão certo. Uma hora ou outra a pessoa vai se distanciar de você. Apesar da vontade de ficarem juntos, os padrões não permitem que isso aconteça. Afinal, quem abandonaria o marido, ou a esposa, ou abriria mão da calmaria de um longo namoro para viver a paixão com seu quase amor, num barco furado? Ninguém troca o certo pelo duvidoso. E talvez seja melhor assim.

Depois de toda a história vivida e sonhada, no final, você será tratado como um estranho. Amizade, nem no Facebook mais. E, quando o dia amanhecer meio nublado, com clima de solidão, você vai se lembrar do seu quase amor e revirar as mensagens antigas para amenizar um pouco a saudade. Ou não.
“Eu tenho um quase amor, que não pode tornar-se amor verdadeiro, pois nossas vidas correm em tempos diferentes. Mas posso contar com esta pessoa, como se estivesse ao meu lado em todas as horas. Sua ausência chega a se tornar presença nas horas mais impróprias, mas não pode ser meu amor. Enquanto isso vamos vivendo, aproveitando os momentos de amizade, de profissionalismo, escondendo (de nós mesmos) toda esta paixão e tesão que teimam em nos rodear.”

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

#LQL - Modernidade Líquida


O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em sua obra Modernidade Líquida, questiona e contextualiza os parâmetros da sociedade contemporânea. O autor revela as fragilidades, incertezas e inseguranças proporcionadas pela liquidez em cinco conceitos básicos da condição humana (emancipação; individualidade; tempo e espaço; trabalho; comunidade), em contraponto às certezas, segurança e tradição da ‘Modernidade Sólida’. Aquela em que as relações humanas estavam consolidadas por um modelo antigo pré-existente.
A Modernidade Líquida, trazida por Bauman, é associada à sociedade atual por conta da fluidez. O líquido não tem forma, por isso se molda a qualquer recipiente em que estiver inserido. Os fluidos se adaptam a qualquer realidade sem que haja esforço. Penetram nos lugares facilmente e, muitas vezes, são difíceis de serem contidos. Essa é a dinâmica da sociedade atual. Ela se transforma de maneira acelerada. O sólido, para se modificar, é preciso que haja muito esforço.
Um dos conceitos abordados por Bauman é a emancipação. O autor questiona se a liberdade seria uma benção ou maldição, já que o indivíduo é livre para agir de acordo com suas necessidades e desejos, mas também a ele recai a responsabilidade por seus atos. Na Modernidade Sólida, a emancipação se apresentou como problema, porque as pessoas não apresentavam mais o desejo de serem libertadas, de serem livres de suas limitações, de agir conforme bem entendessem, de criar o seu próprio caminho.
Na modernidade líquida, isso muda. As pessoas começam a se lançar em seus impulsos, sem ter amarras para segurá-las. O indivíduo passa de agente passivo para agente ativo, de expectador para ator. 
No tocante à individualidade, o autor fala do agente consumidor, que agora sua frustração maior não é não ter o produto, mas se decidir a escolher apenas uma entre as muitas opções. A fluidez do capitalismo abre essa possibilidade. Cada indivíduo tem a chance de escolher aquilo que mais lhe agrada. Nada é imposto, ao consumidor. De diferentes formas, ele deve ser conquistado, seduzido.
Um dos efeitos mais significativos da Modernidade Líquida é a relação tempo/espaço. Com a dinâmica das relações sociais, a vida se transformou em diversas escolhas com infinitas possibilidades. As coisas se desenrolam com grande rapidez. As escolhas devem ser feitas sem perda de tempo. Os momentos devem ser vividos de forma imediata e intensa. O depois não mais existe. Só o agora é que vale. Por isso as pessoas falam com grande frequência que o ‘tempo passa cada vez mais rápido’.
Na questão relativa ao trabalho, uma mudança clara é percebida na sociedade inserida na Modernidade Líquida. A atual geração não tem mais como ideal de carreira entrar em uma empresa ainda bastante novo e lá ir subindo os degraus rumo às hierarquias superiores, até chegar ao topo e, posteriormente, gozar de sua aposentadoria. Na dinâmica líquida, o indivíduo não tem esse pensamento a longo prazo. Ele aproveita as oportunidades que têm, não fazendo uso da estabilidade que conseguiria se continuasse no mesmo emprego. Como o autor diz, o longo prazo é substituído pelo curto prazo, sendo necessários ajustes ao longo do percurso.
Por fim, Bauman entra no tema da comunidade. E ele diz que é importante que o indivíduo participe e interaja com o meio, mesmo que as regras estabelecidas colidam com a liberdade individual. O autor menciona que a figura do ‘clokroom’ é fundamental. Esse termo, ou comunidade de carnaval, refere-se ao fato de o indivíduo se vestir de acordo com a ocasião, se moldar conforme o espetáculo. Ele também fala sobre a nova relação com o capital, em que se tornou menos dependente, após as pessoas adquirirem certa liberdade de ação. No capital pesado, havia mais dependência. No entanto, em uma comunidade de capital leve o indivíduo viverá em constante conflito entre a liberdade individual e a responsabilidade coletiva.
MODERNIDADE LÍQUIDA
Autor:
Zygmunt Bauman
Tradução:
Plínio Augusto de Souza
Editora: Zahar
Páginas: 280

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

#LQL - Como parar de planejar e começar a fazer

Este ebook é interessante porque trata de um problema muito comum na vida profissional das pessoas, principalmente dos jovens: planejamento sem ação. De nada adiantar planejar, planejar, planejar e nunca conseguir construir algo, nunca fazer algo concreto. Isso acontece por vários motivos. Às vezes não sabemos direito o que queremos, por isso pensamos em uma série de coisas ao mesmo tempo, sem que façamos qualquer uma delas.

O autor lista sete itens que podem ajudar a passar de agente passivo para agente ativo. São elas:


#1 – Leia, mas leia muito

#2 – Esteja cercado de gente nível A
#3 – Produza, entregue, avance
#4 – Envolva-se com projetos interessantes
#5 – Não gaste dinheiro
#6 – Não fique obcecado com a “felicidade”
#7 – Seja uma pessoa sólida

Para conferir mais dicas sobre produtividade, tentar entender um pouco melhor a mente humana ou a busca pela felicidade, visite o site Estrategistas. Se quiser ótimas recomendações de leituras, inscreva-se aqui.


Está cansado de planejar e quer começar a fazer? Eu também já estive assim. Tinha tanta coisa legal que eu queria fazer, mas nunca conseguia tirar as ideias do papel. Para começar, eu não sabia o que fazer com minha vida. Estava perdido entre as várias opções possíveis. Depois, tinha muita dificuldade em parar de planejar e começar a ação.
Aos poucos, comecei a agir (os princípios que descrevo abaixo) meio que sem perceber, absorvendo conhecimento de mentores e bons livros. Quando eu acordei certo dia, notei que tinha colocado muita coisa legal no mundo e estava no caminho para criar mais.


COMO PARAR DE PLANEJAR E COMEÇAR A FAZER
Autor: Paulo Roberto
Download do livro

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

#LQL - O Rei de Havana


Este, talvez, tenha sido o livro mais diferente que li. Ele conta a curta história de um adolescente que mora na deplorável Havana (Cuba), o Reynaldo. Por lá ele vive intensas histórias regadas a rum, maconha e sexo.

Após perder, na mesma hora, a mãe, o irmão e a avó, a vida do adolescente muda drasticamente. Ele é levado para uma instituição de menores, onde enfrenta algumas situações que não consegue suportar, e foge.

Depois disso, tenta ser dono de si, mas vive constantemente fugindo da polícia. Sua companheira inseparável é a fome. É ela quem o guia diariamente. Para suprir esta necessidade, faz de tudo. Rouba pães, vasculha restos nos lixos, furta turistas, pede esmolas e, também, arruma uns bicos. Mas nada que dure muito. Com temperamento difícil, orgulhoso e ciumento, arruma problemas por onde passa.

A narrativa é envolvente. Tão envolvente quanto os casos amorosos do Rey. A linguagem, pesada e direta. As descrições, realísticas.

Se você for cheio(a) de mimimi, nem perca seu tempo. O livro é para maiores de 18 anos.

Só lendo para descobrir o porquê de o Reynaldo ser o Rei de Havana.
“No meio da briga, a gozação da putinha o machuca ainda mais. Dá um forte empurrão na mãe e a joga de costas contra o galinheiro. De um canto da gaiola, projeta-se uma ponta de cabo de aço que se crava em sua nuca até o cérebro. A mulher nem grita. Abre os olhos com horror, leva as mãos ao ponto onde entrou o aço. E morre apavorada. Em segundos, forma-se uma poça de sangue grosso e de líquidos viscosos. Ela morre com os olhos abertos, horrorizada. Nelson vê aquilo e de repente desaparece o ódio que sente pela mãe. É inundado de dor e de pânico.
- Ai, minha mãe! O que foi que eu fiz, o que foi isso? 
Agarra a mãe, tentando levantá-la, mas não consegue. Está espetada pela nuca na ponta do cabo de aço. 
- Eu matei ela, matei ela! 
Gritando como um louco, sai correndo pelo beiral da cobertura e se atira na rua. Não sente o estrépito do seu crânio ao se arrebentar no asfalto quatro andares abaixo. Morreu igual à mãe, com uma expressão veemente de crispação e de terror. 
A avozinha viu aquilo tudo sem se mexer de seu lugar, sentada num caixote de madeira podre. Sem fazer nem um gesto, fechou os olhos. Não podia viver mais. Já era demais. O coração dela parou. Caiu para trás e ficou recostada na parede, impávida como uma múmia.”

O REI DE HAVANA
Autor:
Pedro Juan GutiérrezTradução: José Rubens Siqueira

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 226

Download do livro

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Revoltada com aumento de energia, moradora cria próprio ar condicionado



A população santarena já não aguenta mais essa situação: noite às escuras e cobrança abusiva no final do mês. Não se passa uma semana sem que o fornecimento de energia elétrica não tenha falhas. Dia após dia a Celpa mostra porque sempre lidera o ranking de reclamações no Procon - apesar de que, ultimamente, os consumidores já estão de saco tão cheio que até pararam de reclamar, fato bastante comemorado pela gerência da empresa, que tenta passar uma falsa de imagem de que as coisas vão bem.

Ainda se recuperando da pancada recebida este mês, quando foi anunciado o aumento de 35% na conta de energia, vários consumidores correm em busca de alternativas para sair do laço criado por governo e concessionária.

Tem gente que já se cansou de dar o suado dinheiro para o governo, que mete a mão nos brasileiros, por meio de tantos impostos, e para uma empresa que consegue ser pior a cada dia.

Uns resolveram voltar a uma realidade na qual pensaram ter deixado para trás. Para estes, substituir a energia fornecida pela Celpa por geradores foi a opção encontrada.

A dona de casa Márcia Ferreira, criativa do jeito que é, encontrou outro jeito de economizar na conta de energia e não passar calor. Ela criou seu próprio ar condicionado, com um consumo muito menor do que os tradicionais. "Meu quarto é muito quente e meu ventilador é fraco. Achei que seria uma solução prática, econômica e satisfatória para meu problema", diz.

Para construir o aparelho, ela assistiu vídeos na internet. Poucas horas depois, já estava desfrutando de sua criação, que precisou de um ventilador, isopor e gelo para ficar pronta.

"É um absurdo um lugar quente desse jeito e a gente não poder nem se refrescar porque a conta de energia é um roubo!”, reclama, indignada.

sábado, 23 de agosto de 2014

Um ser daltônico

Antes de ler este texto, quero que você me faça uma promessa. Preste atenção, porque para mim é algo bem simples, mas, para você, talvez não seja. Toda vez que alguém fica sabendo que eu sou daltônico, sempre repete os questionamentos feitos por trilhões de pessoas. Então, encarecidamente, eu peço para que não me pergunte coisas do tipo: “que cor é essa? E aquela?” (apontando para diversos objetos) ou “como você consegue dirigir?”... vou explicar tudo aqui, belê?

Ser daltônico já é algo normal, para mim. Não é nada que tire meu encanto pela vida ou me faça entrar em depressão. Não ver algumas cores ou confundir tantas outras, de uns anos para cá, tem até sido motivo de muitas gargalhadas. Mas nem sempre foi assim...

Quando eu era um menino, e nada mais que um menino, eu sofria bastante por não saber diferenciar as cores. Acho que a primeira a perceber que eu era daltônico foi minha mãe. No começo, quando meus pais viam meus desenhos, eles achavam que eu gostava muito de vermelho e marrom, porque tudo era nessas cores: casas, pessoas e bichos. De vez em quando apareciam umas nuvens roxas, também. Mesmo assim, tenho certeza que eles sempre ficaram felizes em receber as minhas obras de arte.

As lembranças mais ingratas que eu tenho são das aulas de geografia. Não sei o porquê de a gente ter que colorir tantos mapas. Quando chegava essa hora, sempre me dava uma dor de barriga.
- Pintem a Europa de vermelho – dizia a professora.
- Hei, depois que você usar, empresta o vermelho? – eu pedia para meu colega de turma.
- Eu tenho dois, pode pegar aqui – respondia, me indicando seu estojo repleto de lápis de cor.
- Humm... tá bem – falava sem saber o que fazer. Não custava nada ele pegava o vermelho e me dar, né? Mas não, eu era obrigado a localizar o bendito lápis entre tantos.
- Haha. Você é doido, por que não pegou o vermelho? A professora vai brigar com você se ver que pintou de marrom.
- Sabe como é, não gosto de seguir as regras... – respondia me cagando de medo.
Depois de seguidos episódios como esse, meus lápis começaram a receber as iniciais das cores, para ver se eu conseguia ‘seguir as regras’.

O engraçado é que lido diariamente com as cores. Seja no meu emprego, ou em bicos por aí, criando artes ou diagramando jornais e livros. Em vez de correr do problema, justamente vou ao centro dele. :/

O maior questionamento de todo mundo é: como você consegue dirigir?

Bom, passei anos desenvolvendo uma técnica para que eu pudesse dirigir sem que matasse ou morresse no trânsito. O primeiro passo é óbvio: decorar a posição das cores. Isso é muito prático, no entanto se limita apenas durante o dia. Se for horizontal, às vezes os semaforístas (não sei se essa palavra existe, mas a usei no sentido de 'os caras que instalam os semáforos') não seguem o mesmo padrão e bagunçam a minha vida. À noite, em certos pontos onde a iluminação pública não é tão boa, você vê apenas a luz acesa, mas não consegue saber em que posição ela está. Às vezes consigo identificar a cor, mas quando isso não acontece, faço uma rápida análise do cenário e observo a movimentação dos outros veículos. Se tem carro à minha frente, faço o que ele faz. Se tem carro atrás, dou uma segurada até ver a reação dele. Se na minha mão não tem carro nem à frente, nem atrás, olho para as outras.

Para jogar videogame, preciso de algumas artimanhas. Quando é possível selecionar a cor de mira em jogos de ação, os daltônicos agradecem. Quando não, é preciso dar um jeito. A melhor solução encontrada (até agora) foi por um pingo de pasta de dente no centro da tela. Assim não tem como errar!

Jogar bola também pode ter suas complicações. Eu e meu irmão – que também é daltônico – já deixamos de jogar por causa das confusões nos coletes. Quando é amarelo, azul ou preto, fica fácil diferenciar. O problema é quando colocam verde e vermelho frente a frente. Aí não tem daltônico que resista. Para não pegarmos fama de maus jogadores, preferimos abrir mão de jogar. O pior é que ninguém acredita, mas fazer o que?

Mais recentemente meu irmão descobriu porque não achávamos tanta graça nos arcos-íris, enquanto todo mundo fazia o maior auê quando algum surgia. Para nós, as sete cores eram que nem o pote de ouro: só ilusão. Nós não as víamos. Quer dizer, nós não as vemos. No máximo, e, olha lá, com muita sorte, enxergamos umas três... mas, tá tudo bem.

Já escrevi, outras vezes, sobre daltonismo. Se quiser, pode conferir.

Histórias de um daltônico

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Asterix, o ciclista maluco

A melhor parte de ser jornalista é poder ouvir as mais loucas histórias que as pessoas têm para contar. A história que contarei a seguir, por exemplo, não sei até que ponto realmente aconteceu. Mas isso não diminui a beleza da coisa. 
Equipe do JSBA teve a honra de posar para foto ao lado do 'maluco' (Foto: Jô Tapajós)
Em 2003, Janilton Ferreira recebeu o apelido de ‘Ciclista Maluco’ de ninguém menos que o então presidente da república, Luís Inácio Lula da Silva. Desde lá ele carrega este nome por todo canto do Brasil por onde passa. Gostou tanto que até deixou de lado o ‘Zé Pedal’, como era chamado antes do encontro com o ex-presidente. Há ainda quem o compare com o herói gaulês das histórias em quadrinhos, o Asterix (presta atenção, são muito parecidos!). 

O ‘Ciclista Maluco’ é, no mínimo, um bom contador de histórias. Histórias estas vividas intensamente durante seus 59 anos de vida (ele vai completar 60 ainda neste ano). Só de pedal, ele já acumula 28 anos. Conheceu alguns países, várias capitais e milhares de cidades. Ele chegou a Santarém na semana passada, vindo do Amapá, onde concluiu mais uma de suas jornadas malucas.

PRIMEIRA AVENTURA


Tudo começou em 1986, quando Ferreira tinha 32 anos. “Teve um amigo que me convidou para dar uma volta. Eu topei. Falei para minha mulher: ‘daqui a seis meses talvez eu volte’”, conta. A viagem por Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia durou bem mais que o previsto: foram necessários 14 meses. “Fomos devagar, sem pressa, para conhecer as cidades”.

A partir daí ele não conseguiu mais desgrudar da bicicleta. Após descansar da primeira viagem, já quis partir para outra aventura. A ideia era desbravar, junto com o amigo, o litoral brasileiro, de Itajaí (SC) até Belém (PA). No entanto, o companheiro não aceitou o novo desafio. Em compensação, a esposa do aventureiro topou. “Nem chegamos a completar o caminho. Fomos até Fortaleza (CE) e voltamos”. Mesmo sem alcançar o objetivo, o ‘passeio’ durou mais de um ano.
Lula, o mentor do apelido 'Ciclista Maluco'


POR ONDE ANDOU


Encontro dos baixinhos contadores de histórias
O ‘Ciclista Maluco’ conta que não planeja as viagens. Apenas pensa para onde quer ir, pega a magrela, e vai. “A gente não planeja. Levo apenas umas cinco peças de roupa, ciclista não tem como levar muita coisa”. Mesmo assim a bicicleta vai carregada. Na bagagem, que pesa cerca de 80 kg, estão peças, caso a magrela quebre, pneus extras, câmaras de ar, além de várias sacolas, bandeiras e, principalmente, fotografias. Várias destas com personalidades conhecidas internacionalmente. São fotos com jogadores (Neymar, Júlio César, Pato), atores (Tonny Ramos, Antônio Fagundes) e políticos (Lula, Romário). Ele chegou a ficar acampado por 17 dias em frente ao Palácio do Planalto para tirar uma foto ao lado de Dilma Rousseff, mas o ciclista foi ignorado pela presidente.

Asterix e Neymar, uma dupla e tanto
Em 28 anos de pedaladas, Ferreira já percorreu mais de 100 mil quilômetros e visitou mais de 3 mil cidades em cinco países. No Brasil, ele conhece quase todas as capitais. “Eu conheço 24 capitais do Brasil. Falta conhecer apenas Boa Vista, Porto Velho e Rio Branco. A última que eu conheci foi Macapá, onde estive recentemente. O que eu faço é um cicloturismo, conhecer o Brasil de bicicleta. Pegar carona não tem graça. Meu amigo é Deus, a melhor companhia”.


OIAPOQUE AO CHUÍ


Há sete anos, em março de 2007, o ‘Ciclista Maluco’ partiu, talvez, para o seu maior desafio. Ele queria cortar o Brasil de Sul a Norte, de Chuí a Oiapoque (vale ressaltar que, apesar de amplamente difundido que esses sejam os dois pontos extremos do Brasil, Oiapoque não é onde ‘começa o Brasil’. O ponto mais ao Norte no mapa brasileiro é Caburaí, em Roraima. Em vez de Oiapoque ao Chuí, dever-se-ia falar: Caburaí ao Chuí).

O feito só foi completado no dia 23 de julho deste ano. “Eu andei por muitos lugares, acabei me atrasando muito, afinal já são sete anos. Em um ano e meio daria para fazer tudo isso”, explica o ciclista, que ainda pretende voltar ao Chuí.

DE JARDINEIRO A AVENTUREIRO


Antes, o ‘Ciclista Maluco’ era jardineiro, agora sua profissão, como ele mesmo diz, é o perigo. Já passou por poucas e boas nos acostamentos das estradas brasileiras. São tantas aventuras que ele já teve de trocar duas vezes de companheira. Margarida e Rebeca já estão aposentadas. Há oito anos a missão ficou por conta da Bambina, que ainda tem muito pneu para gastar. Foi com ela que ele cumpriu a jornada de Chuí ao Oiapoque. “Nunca perdi minha bicicleta, nem a roubaram”, comemora.

Oiapoque: "aqui começa o Brasil"
Ele sempre emagrece bastante durante as viagens. Atualmente está com 67 kg, mas quando partiu para a aventura estava um pouco mais forte, com quase 80 kg. Com a vida que leva, não conseguiu manter o casamento. Há três anos se separou da esposa, com quem teve três filhos. O caçula, inclusive, seguiu algumas viagens com o pai, mas não aguentou o tranco e desistiu do desafio.

Aos 59 anos ele esbanja vitalidade e boa vontade. Ele diz que não bebe, nem fuma (e é claro que eu acredito), e por isso consegue realizar os desafios que traça para sua vida. Ainda não se aposentou, então não tem renda fixa. Para viver, ele conta com o apoio das prefeituras dos municípios por onde passa, além da contribuição dos ‘amigos da estrada’ que admiram a coragem do simpático maluco. “A gente pede apoio nas prefeituras. Às vezes as pessoas passam por mim, dão alguma contribuição”, revela.


FUTURO DO CICLISTA


O aventureiro ainda não decidiu para onde vai depois de Santarém. Estão nos planos Cuiabá ou Manaus. “Aqui é a primeira vez que eu venho. É uma cidade bonita, com bastante gente”, fala. Para ele, os lugares mais bonitos para onde foi, e deseja voltar, são Rio de Janeiro e Fortaleza.

Janilton Ferreira pretende chegar a sua casa, em Itajaí (SC), no final de 2016, e, depois, escrever um livro contando a história da sua vida, para ser lançado no começo de 2018. “Depois disso vou seguir viagem novamente. Eu adoro, sou apaixonado por isso”, finaliza.



A cada conto, aumenta um ponto...


Superbike


Para o jornal O Hoje, de Goiás, o ciclista informou que pedala, em média, a 60 km/h. Ele também falou que viaja cerca de nove horas por dia. Se a gente fizer a conta, ele transcorre um percurso diário de 540 km. Após ler a informação, eu fiquei me questionando: ou o maluco tem c# a jato ou ele peida nitro. O mais bacana de tudo é que o figura ainda é humilde. Diz que "não tem pressa".


Quilômetros incontáveis


Em maio deste ano, o jornal Agora, do Maranhão, disse que Janilton Ferreira havia percorrido cerca de 3.500 km, por 24 capitais brasileiras. Mais recentemente, no dia 14 de agosto, ao portal Globo Esporte, no Pará, o ciclista afirmou que sua quilometragem era muito mais alta: nada menos do que 120 mil km percorridos. Das duas, uma. Ou o odômetro de sua bicicleta está com defeito, ou ele percorreu 116.500 km em três meses.



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

De mãos atadas


Até quando o povo brasileiro vai ficar refém dos mesmos grupos políticos que se revezam na sucessão do poder há décadas? Até quando vamos continuar inertes neste cenário deplorável e degradante para que o Brasil caminha?

Não é possível que não haja solução. Todo mês eu escrevo um texto similar a este questionando as mesmas coisas e, ainda, continuo sem respostas. Não sei se realmente eu seja muito pessimista quanto ao presente/futuro ou se realmente tenho razão por ficar insatisfeito com o rumo que as coisas andam. Talvez se eu ficasse a maior parte do tempo em um mundo paralelo, puxando um baseado, como tantos por aí, eu defendesse que estamos caminhando no trilho certo...

Até a quarta-feira, 7, o governo, por meio de impostos e tributos, já havia sugado de nossos bolsos a salgada quantia de quase R$ 780 BILHÕES. Acredita nisso? Dinheiro meu, dinheiro seu. Dinheiro de famílias que não têm nem o que comer. O mais incrível é que essa montanha simplesmente desaparece na mão de nossos governantes. Esse dinheiro não volta em benefício. Problemas básicos – e centenários – continuam nos assolando. Saneamento básico parece até luxo.

Quando vamos comprar um produto, temos duas opções. Ou adquirimos algo de qualidade, no qual temos confiança de que o investimento valerá a pena e, por isso, desembolsamos uma quantia maior. Ou compramos um produto de preço muito mais baixo, que não tem a mesma qualidade, e logo vai nos deixar na mão.

Quando se fala em imposto, no Brasil, as coisas se invertem. Pagamos caro por um produto que não tem qualidade. Ou seja, suamos sangue pagando taxas altíssimas em produtos e serviços para que nossos ditos representantes apliquem mal os recursos – ou, pior, desviem para benefícios próprios.

O caso mais recente, escandaloso e ridículo é o aumento concedido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) à Celpa. A cacetada foi pesada. O sofrido povo paraense vai pagar 35% a mais em sua conta de energia. Um aumento enorme desse, superior a 1/3, e as coisas continuam como se tudo estivesse normal. Cadê os políticos ditos interessados nas causas populares?

É preciso mudar. É preciso encontrar um novo caminho para seguir, porque este, no qual estamos, vai para o precipício. E, se lá cairmos, nunca mais sairemos.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Deveríamos viver como se estivéssemos em guerra. 
Aproveitando cada segundo sem saber se teríamos a oportunidade de viver o próximo.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Resenha sobre a Copa, o Felipão e a Seleção

SOBRE A COPA


O futebol está feio. E não é preciso ser especialista para notar isso. A coisa vai mal não só aqui no Brasil. A Copa do Mundo é a melhor prova. Tanta expectativa pra nada. Não sei se sou o único, mas eu achei esta Copa, com o perdão da palavra, uma bosta. E não entro no mérito da participação dos torcedores, e da festa nos estádios. Falo da bola rolando. Há alguns anos a inspiração foi sumindo para se dar lugar à transpiração. Saíram de cena os craques, entraram os cabeças de bagre. Saiu o talento, entrou a força. Antes, assistir a uma partida de futebol era diversão, arte. Hoje é sofrimento, quase infarte.

Até a Alemanha, que todos já esperavam uma boa campanha por conta do ótimo desempenho dos clubes locais nos últimos anos (Bayern de Munique e Borussia Dortmund), não jogou lá aquelas coisas. Um futebol comum. Nenhum craque, nada diferente. Empatou com Gana, suou pra ganhar da Argélia... que, convenhamos, não são ninguém no mundo futebolístico.

Mas, depois da surra no Brasil, se tornou a sensação. Por aí se explica um pouco do que dizem que brasileiro gosta de sofrer. Quanto mais sofre, mais adora o opressor. Na boa, torcer pra Alemanha depois de tomar um sarrafo de 7 a 1 é algo estranho. Mesmo que o adversário seja a Argentina.

SOBRE O BRASIL
David Luiz é um grande jogador. Disso ninguém duvida. Mas, infelizmente, nesta Copa ele foi muito mal. Talvez por jogar como volante no seu clube, ele não conseguiu ir bem como zagueiro. Contra a Alemanha, ele foi o principal responsável pelo resultado. Até porque não teve o Thiago Silva ao lado, para chamar a atenção. Como capitão, ele tinha a obrigação de assumir a responsabilidade de organizar o time dentro de campo. Mas fez justamente o contrário. Parecia um doidão. Embalado pela torcida, curtiu a sensação de se sentir um ídolo. Em vez de fazer o que devia e manter sua posição dentro de campo, quis bancar o herói, expondo a equipe e proporcionando aquele resultado tão elástico. Dos 7 gols, pelo menos 3 foram por falha dele. O Dante, coitado, se viu perdido tendo que marcar os alemães enquanto o David se aventurava lá na frente. Mas, ressalto, é muito bom jogador. Fez um golaço de falta nesta Copa.

Não nego que foi comovente o discurso dele, mas na hora de ter consciência tática, ele não se preocupou. Discurso ganha torcida, mas não constrói resultado positivo. Quis ser mais importante que os outros e caiu por seus próprios erros. Devia ter pensado nos brasileiros na hora que fez as cagadas, não depois, enquanto pedia desculpas, lagrimando.

No geral, o grupo era muito fraco. Só tínhamos zagueiros e volantes de qualidade. Nas laterais, uma lástima. Daniel Alves a Maicon disputando para ver quem acertaria o primeiro cruzamento. Acho que até agora estão tentando. Nenhum meia capaz de fazer a diferença. Oscar sumiu em campo. William surgiu não sei de onde só para combinar com o penteado do Marcelo, Dante e David Luiz. E, no ataque, nem se fala. Pra quem já teve no camisa 9 a esperança de muitos gols, ver o Fred na seleção é motivo de piada. Falando em piada, era o Jô que participava do Casseta e Planeta?

A esperança é que até 2018 uma nova geração surja e faça a diferença.

SOBRE O FELIPÃO

Claro que o Felipão tem culpa pela campanha realizada pelo Brasil, em casa. Mas a culpa não é só dele. Tanto é, que no ano passado, quando ele faturou a Copa das Confederações, que quase ninguém acreditava ser possível, caiu nos braços da torcida. Assumiu a seleção às vésperas, herdando uma bagunça deixada por Mano Menezes, e conseguiu formar um time bastante competitivo.

Com os jogadores que tinha, ele levou a seleção longe demais. Dentre 32 seleções, ficamos entre as quatro melhores. Fiasco foi a Itália, Espanha... não passaram nem da fase de grupos. Claro, foi vergonhoso tomar uma taca de 7 a 1. Mas, friamente, perder de 1, 5, ou 7, tem o mesmo efeito prático.

O Felipão está menos de dois anos no cargo. Fez o que pôde. Já está na hora de pensar diferente e parar de mudar de técnico como se troca de roupa. Já que estão falando tanto da Alemanha, seria bom pegar o exemplo. Há anos a seleção alemã não ganhava nada. E, mesmo assim, bancaram o mesmo técnico. O Felipão nunca teve essa chance. Nunca teve tempo para desenvolver seu trabalho. Sempre foi chamado às pressas. 

Para quem agora critica o Felipão, é bom lembrar um pouco da história. Quando ele assumiu pela primeira vez a seleção, em 2001, a realidade era parecida. Pegou a bomba deixada por Luxemburgo, Candinho e Leão. O Brasil estava perdido. Jogava mal e corria até o risco de ficar fora da Copa. No início não foi fácil, mas com as peças que tinha, Felipão soube engrossar o caldo.

O grupo era muito diferente do atual. Naquela época tínhamos vários craques. São Marcos, que salvou o time em diversas ocasiões; Lúcio, sempre com muita garra e determinação; Roque Júnior; Edmílson; Cafu, o capitão de última hora (Emerson foi cortado por lesão); Roberto Carlos, um dos melhores laterais do futebol mundial; Ronaldinho Gaúcho, fundamental na campanha e eternamente lembrado pelo jogo contra a Inglaterra; Denílson, o artista dos gramados; Rivaldo, o gênio da bola, importante em todas as partidas; Ronaldo, artilheiro da competição e autor dos gols que deram o título contra a Alemanha; além de Edílson, Gilberto Silva, Kléberson, Juninho Paulista e Luizão... aquele time dava show. O atual dá choro. 

Assim como em 2002, Felipão foi cabeça dura. Lá ele apostou no Ronaldo (que vinha de seguidas lesões, deixando de fora Romário, o melhor jogador na posição, na época). Desta vez ele bancou o Fred. No entanto, o tiro saiu pela culatra. Se lá no passado Ronaldo resolveu e, ao lado do Rivaldo, foi o principal jogador brasileiro; no presente, Fred não mostrou ser merecedor da vaga na seleção. De longe foi o pior jogador brasileiro. Com ele, o Felipão cavou sua própria cova. Talvez ele queria dar uma de Zagallo, esperando Fred desencantar, pra poder gritar: “vocês vão ter que me engolir”. Mas foi uma opção. E, quando envolve escolhas, nem sempre é possível acertar.

Ele é o último técnico campeão do mundo pelo Brasil e vai continuar sendo até, pelo menos, 2018. E, por pior que pareça, a colocação da seleção na Copa de 2014 foi melhor do que nas duas anteriores. Em 2006, Parreira, apesar de todos os craques que tinha à disposição, ficou apenas em 5º. Em 2010, Dunga levou o Brasil para o 6º lugar. Quer dizer, mesmo com a pior safra de jogadores das últimas décadas, Felipão ainda conseguiu ser melhor que seus antecessores. 

Não vejo como desastre ficar entre os quatro melhores.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

#GORDINHOQUECORRE

Um gordinho feliz

Eis que a minha jornada definitiva em busca de uns 10 kg a menos começou pra valer. Eu sei que já iniciei, por diversas vezes, outras jornadas que não deram resultado. Sempre fiquei pelo caminho. Mas prometi para meu gordinho interior que desta vez seria diferente. E espero, de verdade, que seja.

Beirando os 100 kg, já era hora de me preocupar, né? Ainda mais quando o cálculo de Índice de Massa Corporal (IMC) dá 31,3 (obesidade grau I) e aparece a seguinte mensagem: "você está muito acima de seu peso normal. É recomendável que você procure auxílio para evitar complicações relacionadas à obesidade. Consulte um médico ou nutricionista."

Na segunda-feira (30 de junho) eu consegui vencer minha preguiça e caminhei no Parque da Cidade. Não foi fácil, mas dei os primeiros passos em busca da desgordurização do meu ser. E, levando em consideração a linda paisagem que eu vi por lá, não vou desanimar tão cedo. Cada docinho... :)

É isso. Em breve serei um ex-gordo. Que Deus me ajude.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Iguais? Nem tanto

O que dizer sobre as cotas raciais instituídas no Brasil? O tema, mais uma vez, vem à tona por conta do Projeto de Lei que pretende reservar 20% das vagas de concursos públicos para negros e pardos.

Segundo a Constituição Federal, todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Não importa a cor da pele, não importa o sexo, não importa a conta bancária. No entanto, na prática, não é bem assim que as coisas funcionam. Para reparar – ou, ao menos, amenizar – o tratamento dado a grupos historicamente desprestigiados, busca-se criar mecanismos para que eles possam ter as mesmas oportunidades que os demais. Procura-se dar aos desiguais um tratamento desigual, para que as diferenças, ao longo do tempo, diminuam.

Se a intenção é boa, o resultado, nem tanto. Ao selecionar grupos específicos para que recebam benefícios, entra-se em um cenário delicado. Como é possível combater o racismo, por exemplo, se as próprias políticas públicas contribuem para que ele aconteça? É preciso bom senso. Até porque, ao separar a sociedade em grupos, sempre haverá os que se sentem menos prestigiados. Então, será que a todos esses seriam dadas regalias específicas?

Não acho lógico usar o argumento de dívida histórica com os negros por conta da escravidão para concorrência de cotas. Até porque, se for usado o mesmo argumento, teriam que ser concedidas cotas às mulheres, por conta de sempre estarem submetidas à vontade do homem ao longo da história. E, quem sabe, dar os mesmos privilégios aos homossexuais, que sempre sofreram escancarado preconceito... creio que não é por aí que as coisas devem caminhar.

As cotas raciais para o acesso à universidade e, agora, para concursos públicos, cria, na população, um sentimento de revolta. Dá a ideia de que, quem não tem a cor da pele preta, é mais inteligente do que quem tem. O que não tem a mínima base de verdade. Não é a cor da pele que vai indicar a capacidade intelectual, nem força de vontade, muito menos até qual degrau de sucesso profissional uma pessoa pode chegar.

O que a cor da pele interfere? Nada. Absolutamente nada. Vai me dizer que o filho do ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa tem menos chances de ingressar em uma universidade, ou em um cargo público, por meio de concurso, do que um filho de nordestino, pobre, que trabalha o mês todo para ganhar um salário mínimo para o sustento da família? Creio que não.

Qual é a lógica? Como eu posso lutar contra o racismo, se o próprio sistema contribui para que ele aconteça? Ou vai dizer que as pessoas de fora desse grupo não se sentem menosprezadas? Cotas raciais privilegiam apenas um grupo, sem justificativa. Diferentemente das cotas sociais. Se a intenção é dar oportunidade a quem não teria chance de outra forma, que dê a quem é menos favorecido economicamente. Afinal, nem todo negro é pobre, e nem todo branco é rico. E, olha só, ao estimular as cotas sociais, automaticamente os brasileiros negros são incluídos, já que cerca de 70% dos negros são pobres.

É grave separar a população entre negros e não-negros. Ao cometer isso, todo o discurso de igualdade vai para o ralo, e as consequências podem ser perigosas. Já tivemos casos bisonhos no Brasil por conta dessa ‘seleção racial’ para cotas. Há alguns anos a Universidade de Brasília (UnB) julgou gêmeos idênticos de forma distinta. Um foi considerado negro, o outro não. Duas pessoas que nasceram e cresceram no mesmo ambiente, recebendo a mesma educação e oportunidades, mas o critério de seleção simplesmente pela cor traçou destino diferente para os dois (após recurso, a universidade avaliou o julgamento errado e também admitiu o outro irmão).

É preciso dar educação de qualidade para todos, negros ou não. É preciso dar oportunidades para todos, negros ou não. É preciso incluir todos na sociedade, negros ou não. Afinal, somos todos iguais, negros ou não. Não é pela cor da pele que eu vou julgar uma pessoa. É preciso trabalhar para consertar os erros, e não criar mecanismos para maquiá-los.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Reflexão do limão


Acredito que deveríamos ser igual a um limão. Discreto, com personalidade e com qualidades completamente únicas.

Estava em casa e senti sede. Lembrei que tinha uns limões na geladeira. Pensei em fazer um suco. Fui até a cozinha, abri a geladeira e comecei a procurar o limão. Virei, revirei, até que encontrei. Peguei o sobrevivente, velho, murcho e feinho, cortei ao meio e espremi no copo. Foi aí que me surgiu essa reflexão.

Se tem uma coisa que acho fundamental em casa é limão. Com ele dá pra fazer suco, temperar salada e ainda servir de acompanhante em diversas comidas. É super barato, pequeno, e dá um toque todo especial.
Sabia que existe pessoa-limão? Aquelas pessoas discretas, que ficam escondidinhas e muitas vezes são colocadas de lado. Não existem muitas delas, mas as poucas que existem fazem toda a diferença. Assim como o limão, uma única pessoa desse tipo é capaz de fazer muita coisa. 

Geralmente não aparece, mas quando entra em cena chama atenção, não pela sua aparência, mas pelo seu conteúdo. E quando abre a boca deixa um gosto azedo na boca dos outros, geralmente os que gostam se aparecer.