quinta-feira, 25 de setembro de 2014

#LQL - O Rei de Havana

Este, talvez, tenha sido o livro mais diferente que li. Ele conta a curta história de um adolescente que mora na deplorável Havana (Cuba), o Reynaldo. Por lá ele vive intensas histórias regadas a rum, maconha e sexo.

Após perder, na mesma hora, a mãe, o irmão e a avó, a vida do adolescente muda drasticamente. Ele é levado para uma instituição de menores, onde enfrenta algumas situações que não consegue suportar, e foge.

Depois disso, tenta ser dono de si, mas vive constantemente fugindo da polícia. Sua companheira inseparável é a fome. É ela quem o guia diariamente. Para suprir esta necessidade, faz de tudo. Rouba pães, vasculha restos nos lixos, furta turistas, pede esmolas e, também, arruma uns bicos. Mas nada que dure muito. Com temperamento difícil, orgulhoso e ciumento, arruma problemas por onde passa.

A narrativa é envolvente. Tão envolvente quanto os casos amorosos do Rey. A linguagem, pesada e direta. As descrições, realísticas.

Se você for cheio(a) de mimimi, nem perca seu tempo. O livro é para maiores de 18 anos.

Só lendo para descobrir o porquê de o Reynaldo ser o Rei de Havana.


“No meio da briga, a gozação da putinha o machuca ainda mais. Dá um forte empurrão na mãe e a joga de costas contra o galinheiro. De um canto da gaiola, projeta-se uma ponta de cabo de aço que se crava em sua nuca até o cérebro. A mulher nem grita. Abre os olhos com horror, leva as mãos ao ponto onde entrou o aço. E morre apavorada. Em segundos, forma-se uma poça de sangue grosso e de líquidos viscosos. Ela morre com os olhos abertos, horrorizada. Nelson vê aquilo e de repente desaparece o ódio que sente pela mãe. É inundado de dor e de pânico.
- Ai, minha mãe! O que foi que eu fiz, o que foi isso? 
Agarra a mãe, tentando levantá-la, mas não consegue. Está espetada pela nuca na ponta do cabo de aço. 
- Eu matei ela, matei ela! 
Gritando como um louco, sai correndo pelo beiral da cobertura e se atira na rua. Não sente o estrépito do seu crânio ao se arrebentar no asfalto quatro andares abaixo. Morreu igual à mãe, com uma expressão veemente de crispação e de terror. 
A avozinha viu aquilo tudo sem se mexer de seu lugar, sentada num caixote de madeira podre. Sem fazer nem um gesto, fechou os olhos. Não podia viver mais. Já era demais. O coração dela parou. Caiu para trás e ficou recostada na parede, impávida como uma múmia.”
  

O REI DE HAVANA
Autor:
Pedro Juan GutiérrezTradução: José Rubens Siqueira

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 226

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