terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Banho de chuva


Chuva.

Como explicá-la? Uma mera definição, neste caso, não seria o bastante. Abrir o Google e pesquisar “o que é a chuva?” não solucionaria a questão. Lá, no sabe-tudo, chovem dezenas de respostas como esta:  

Chuva é um fenômeno meteorológico que consiste na precipitação de gotas de água no estado líquido sobre a superfície da Terra. A chuva forma-se nas nuvens. Nem todas as chuvas atingem o solo, algumas evaporam-se enquanto estão ainda a cair, num fenômeno que recebe o nome de virga e acontece principalmente em períodos/locais de ar seco.

Mas a chuva é mais que isso. Muito mais. Ela é inexplicável. Indecifrável.

Hoje ela pode ser a salvação, amanhã pode ser a desgraça. Para uns ela é motivo de felicidade, para outros, de lágrimas. A mesma chuva que promove fartura e panelas cheias em um lar, também provoca mortes, choro e cicatrizes para toda a vida em outros.

Ela não avisa. E quando avisa, não faz diferença. A realidade é sempre a mesma.

A chuva nunca passa despercebida. Por menor que seja. Por mais fraca que caia. Sempre é possível ver suas marcas pelo caminho. Sempre gera uma infinidade de resultados. E reações.

Ela mexe com nosso ser. Com nosso ‘eu’. Nos deixa mais sensíveis, reflexivos e silenciosos. Parece que transcendemos para uma outra dimensão. Uma dimensão em que nada faz sentido e que, ao mesmo tempo, tudo se encaixa. Um momento em que desvendamos um pouquinho mais de nós mesmos. Ficamos num estado em que mergulhamos no mais profundo medo. Onde, enfim, podemos meditar.

A chuva.

A chuva cai levemente no meu rosto. Gelada. Meu corpo demora alguns minutos para se acostumar. Ainda estava aquecido pela roupa que usei durante todo o dia. A mesma roupa que não deixou de me proteger apesar de ser atingina por centenas de gotas d’água.

Cheguei em casa meio pensativo. O dia não havia sido como eu esperava. Não por minha culpa, mas por alguns fatores que fugiram ao meu controle.

Saí da minha aula pouco depois de o relógio marcar 21h. Aula legal. A não ser para mim. Não estava em um momento muito alegre. Acho que estava assim, também, por culpa da chuva. Ela me deixa meio jururu quando aparece. Não sei o porquê.

Cheguei em casa torcendo para que ela diminuísse. Entretanto, como minha moral está lá embaixo, meu pedido não surtiu efeito. Desci do carro apressadamente, já com a chave certa nas mãos para abrir o cadeado da garagem. Cumpri a tarefa e voltei. Voltei todo molhado. Coloquei  o carro para dentro e entrei em casa.

Estava tudo escuro.

Não via nada. Apenas ouvia o barulho da chuva. Sedutora chuva.

Achei que seria bom tomar um banho nela (ou com ela). Isso me traz bons momentos. Na verdade ótimos momentos. Talvez os melhores, mais surpreendentes e inesperados que vivi. Gosto de lembrá-los. São reconfortantes. Me fazem bem.

Tirei minha roupa e fui para o quintal. Encarei a chuva, gelada. Imaginei no que os vizinhos pensariam. Mas achei meio improvável alguém estar para fora de casa em meio àquela chuva toda.

Fiquei lá, parado. Imóvel. Não sei por quanto tempo...

Viajei em meus pensamentos. Visitei lugares que há muitos anos não visitava. Lembrei de pessoas de que não via há muito tempo. Recordei de muitos momentos bons. De dias inesquecíveis. De uma felicidade que, às vezes, parece querer se esconder.

Pensei nos meus dias. Nas minhas ações. Em que eu sou. Em quem transformei...

Refleti. Cantei. Sorri.

Fiquei sozinho ali, sentado no degrau da escada que estava encostada no muro. Depois me estiquei no capô do carro.

Fiquei sozinho ali, olhando para o céu, para a chuva caindo. Para meus sonhos que pareciam ir sumindo.

Fiquei sozinho, ali. Naquela chuva que parecia lavar minha alma. Naquela água que tentava me empurrar para longe. Para um lugar que eu nunca fui. E nem queria ir.

Fiquei... Fiquei ali, naquele lugar. Naquele lugar eu fiquei. Fiquei até não precisar. Até me sentir melhor. Ou bem pior a ponto de não aguentar.

Então eu saí dali. Saí... Saí e não olhei para trás. Saí e não quis voltar. Somente saí...