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sábado, 23 de agosto de 2014

Um ser daltônico

Antes de ler este texto, quero que você me faça uma promessa. Preste atenção, porque para mim é algo bem simples, mas, para você, talvez não seja. Toda vez que alguém fica sabendo que eu sou daltônico, sempre repete os questionamentos feitos por trilhões de pessoas. Então, encarecidamente, eu peço para que não me pergunte coisas do tipo: “que cor é essa? E aquela?” (apontando para diversos objetos) ou “como você consegue dirigir?”... vou explicar tudo aqui, belê?

Ser daltônico já é algo normal, para mim. Não é nada que tire meu encanto pela vida ou me faça entrar em depressão. Não ver algumas cores ou confundir tantas outras, de uns anos para cá, tem até sido motivo de muitas gargalhadas. Mas nem sempre foi assim...

Quando eu era um menino, e nada mais que um menino, eu sofria bastante por não saber diferenciar as cores. Acho que a primeira a perceber que eu era daltônico foi minha mãe. No começo, quando meus pais viam meus desenhos, eles achavam que eu gostava muito de vermelho e marrom, porque tudo era nessas cores: casas, pessoas e bichos. De vez em quando apareciam umas nuvens roxas, também. Mesmo assim, tenho certeza que eles sempre ficaram felizes em receber as minhas obras de arte.

As lembranças mais ingratas que eu tenho são das aulas de geografia. Não sei o porquê de a gente ter que colorir tantos mapas. Quando chegava essa hora, sempre me dava uma dor de barriga.
- Pintem a Europa de vermelho – dizia a professora.
- Hei, depois que você usar, empresta o vermelho? – eu pedia para meu colega de turma.
- Eu tenho dois, pode pegar aqui – respondia, me indicando seu estojo repleto de lápis de cor.
- Humm... tá bem – falava sem saber o que fazer. Não custava nada ele pegava o vermelho e me dar, né? Mas não, eu era obrigado a localizar o bendito lápis entre tantos.
- Haha. Você é doido, por que não pegou o vermelho? A professora vai brigar com você se ver que pintou de marrom.
- Sabe como é, não gosto de seguir as regras... – respondia me cagando de medo.
Depois de seguidos episódios como esse, meus lápis começaram a receber as iniciais das cores, para ver se eu conseguia ‘seguir as regras’.

O engraçado é que lido diariamente com as cores. Seja no meu emprego, ou em bicos por aí, criando artes ou diagramando jornais e livros. Em vez de correr do problema, justamente vou ao centro dele. :/

O maior questionamento de todo mundo é: como você consegue dirigir?

Bom, passei anos desenvolvendo uma técnica para que eu pudesse dirigir sem que matasse ou morresse no trânsito. O primeiro passo é óbvio: decorar a posição das cores. Isso é muito prático, no entanto se limita apenas durante o dia. Se for horizontal, às vezes os semaforístas (não sei se essa palavra existe, mas a usei no sentido de 'os caras que instalam os semáforos') não seguem o mesmo padrão e bagunçam a minha vida. À noite, em certos pontos onde a iluminação pública não é tão boa, você vê apenas a luz acesa, mas não consegue saber em que posição ela está. Às vezes consigo identificar a cor, mas quando isso não acontece, faço uma rápida análise do cenário e observo a movimentação dos outros veículos. Se tem carro à minha frente, faço o que ele faz. Se tem carro atrás, dou uma segurada até ver a reação dele. Se na minha mão não tem carro nem à frente, nem atrás, olho para as outras.

Para jogar videogame, preciso de algumas artimanhas. Quando é possível selecionar a cor de mira em jogos de ação, os daltônicos agradecem. Quando não, é preciso dar um jeito. A melhor solução encontrada (até agora) foi por um pingo de pasta de dente no centro da tela. Assim não tem como errar!

Jogar bola também pode ter suas complicações. Eu e meu irmão – que também é daltônico – já deixamos de jogar por causa das confusões nos coletes. Quando é amarelo, azul ou preto, fica fácil diferenciar. O problema é quando colocam verde e vermelho frente a frente. Aí não tem daltônico que resista. Para não pegarmos fama de maus jogadores, preferimos abrir mão de jogar. O pior é que ninguém acredita, mas fazer o que?

Mais recentemente meu irmão descobriu porque não achávamos tanta graça nos arcos-íris, enquanto todo mundo fazia o maior auê quando algum surgia. Para nós, as sete cores eram que nem o pote de ouro: só ilusão. Nós não as víamos. Quer dizer, nós não as vemos. No máximo, e, olha lá, com muita sorte, enxergamos umas três... mas, tá tudo bem.

Já escrevi, outras vezes, sobre daltonismo. Se quiser, pode conferir.

Histórias de um daltônico

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Meias...



Não sei se com todo mundo é assim. Mas eu tenho um problema sério em minha vida.
Meias...

Pode parecer frescura, no entanto, isso tira a paz de qualquer um. Todo dia a mesma labuta. Acordo, me arrumo todo. Chega na hora de calçar os sapatos, cadê as meias? Não sei... E nem adianta procurar.

Sabe o que é mais incrível? Se eu compro o par, uso o par, como desaparecem? Encontrei uma explicação.

Acho que uma meia é mulher, a outra é homem. E depois de algum tempo de casados, começam a brigar. Não querem mais andar juntos. O homem sai nas madrugadas e esquece de voltar para casa no outro dia. Aí, quem paga o pato, é o dono do casalzinho brigão.

Por conta disso já usei muito par trocado... Meu pai, quanto já riram de mim. A sorte sabe qual é? Ser daltônico. É, isso mesmo. Às vezes temos que usar nossos problemas em nosso benefício. A coisa mais simples que tem para um daltônico é confundir cores. Então se aparecer com uma meia azul e outra rosa, é só dar a desculpa. “São diferentes? Poxa, nem sabia. Jurei que fossem da mesma cor”.

Hoje mesmo não tive opção. Vim para o trabalho com meias diferentes, mas ambas são da mesma cor: cinza (pelo menos eu acho). Mas não quero ninguém no meu pé para ter certeza se são mesmo. Semana passada usei meu meião de jogar bola para trabalhar. “Nossa Joab, ta de meião?”, perguntaram. “Um bom jogador sempre tem que estar pronto, vai que o técnico me escala de última hora, né?”, respondi.

Meia é um negócio complicado mesmo. Quanto mais você compra, mais você tem que comprar. Não tem jeito. Além de sumir como que em passe de mágica, as que ficam sempre apresentam ótimas condições. Garanto que todo mundo já usou alguma apertando o sangue da canela. Eu até pegava uns barbantes para amarrar na perna.

Lembro do meu tempo de escola. Aula de Educação Física. Todo mundo animado e tal. “Vamos, todo mundo em fila. Quero saber a altura e o peso de vocês”, diz a professora. Eu lá, animado, nem lembrava das minhas meias. Chega minha vez, tiro o tênis. Mal tenho tempo de me levantar, todo mundo já está rindo. Olho para os meus pés... Aí vem o desespero.

Olha só a minha situação. Estou com uma meia social do meu pai. Um lado preto, o outro azul. (Só depois que fui perceber). Na verdade acho que nem dava para chamar aquilo de meia. Estava mais para peneira... Meu dedão respirava livre. Meu calcanhar folgado, sem nada apertando ele. A professora, muito legal, esboça um risinho sarcástico. Meus amigos, tão legais, escondem meu tênis. E eu, muito forte, corro para o banheiro e desabo a chorar.

Até a próxima!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Um daltônico explicando o daltonismo

Bom pessoal, ontem fiz uma grande revelação. Falei sobre meu problema. É claro, não foi fácil, ainda mais depois de tudo que já passei, mas, a vida segue...

Não sei se todos têm conhecimento sobre o daltonismo. Eu mesmo ainda não sei direito o que é. Só sei que não vejo um monte de bolinhas coloridas. Fui pesquisar a respeito e encontrei muitas explicações e algumas histórias bem divertidas.

O daltonismo (tem gente que gosta de complicar, chamam também de discromatopsia ou discromopsia. Mas daltonismo já está de bom tamanho. Daltonismo com ‘L’, viu? Nada de usar o ‘U’), basicamente falando, é quando o indivíduo vê várias cores e não consegue diferenciá-las. Geralmente o maior problema é distinguir o verde do vermelho. Este ‘defeito’ tem normalmente origem genética.

Pode parecer algo simples, mas só quem tem isso sabe como é complicado. Posteriormente vou contar algumas das diversas histórias que vivi por causa deste tal distúrbio. Coisas simples como pintar um mapa na escola, ou dirigir, às vezes, se tornam verdadeiras missões impossíveis. 

Como é que o negócio funciona
Pelo que eu entendi, existem três cores primárias: verde, vermelho e azul. Essas cores são captadas pelos cones (células sensíveis à cor. A retina humana possui três tipos delas) e combinam-se formando uma imagem colorida.

As tonalidades visíveis dependem do modo como cada tipo de cone é estimulado. A luz azul, por exemplo, é captada pelos cones de "alta frequência". No caso dos daltônicos, algumas dessas células não estão presentes em número suficiente ou registram uma anomalia no pigmento característico dos fotorreceptores no interior dos cones. 

Tipos de daltonismo
Nós existimos em três grupos. Preste atenção para ver se consegue nos distinguir. Os tipos são: Monocromacias, Dicromacias e Tricromacias Anómalas.

Acho que o pior é este aqui, Monocromacia, porque ele enxerga tudo cinza. Já pensou, ver tudo em preto e branco? Já acho ruim assistir aos filmes ‘novos’ que minha mãe aluga, imagina ver a vida sem cores? Ruim, né? Só foto P&B que é bacana. Tem o monocromata típico que atinge 0,003% dos homens e 0,002% das mulheres do mundo. Muitos animais, como os de hábitos noturnos, peixes abissais e pingüins possuem essa característica. E o monocromata atípico, que é muito raro na população humana, mas é encontrado em ratos. 

Outro tipo é a Dicromacia, que resulta da ausência de um tipo específico de cones, pode apresentar-se sob a forma de: protanopia, em que há ausência na retina de cones "vermelhos"  resultando na impossibilidade de discriminar cores no segmento verde-amarelo-vermelho do espectro; deuteranopia, em que há ausência de cones "verdes", resultando, igualmente, na impossibilidade de discriminar cores no segmento verde-amarelo-vermelho do espectro (cerca de 1% da população masculina tem); tritanopia, em que há ausência de cones "azuis", resultando na impossibilidade de ver cores na faixa azul-amarelo).

O último tipo é a Tricromacia anômala, que se manifesta em três anomalias distintas: protanomalia, mutação do pigmento sensível aos "cones vermelhos". Resulta numa menor sensibilidade ao vermelho e num escurecimento das cores perto das freqüências mais longas (que pode levar à confusão entre vermelho e preto). Atinge cerca de 1% da população masculina; deuteranomalia, presença de uma mutação do pigmento sensível aos cones verdes. Resulta numa maior dificuldade em discriminar o verde. É responsável por cerca de metade dos casos de daltonismo; tritanomalia, presença de uma mutação do pigmento sensível aos "cones azuis". Forma mais rara, que impossibilita a discriminação de cores na faixa do azul-amarelo.

Vantagens?
A mutação genética que provoca o daltonismo sobreviveu pela vantagem dada aos daltônicos ao longo da história evolutiva. Essa vantagem advém, sobretudo, do fato de os portadores desses genes possuírem uma melhor capacidade de visão noturna, bem como maior capacidade de reconhecerem elementos semi-ocultos, como animais ou pessoas disfarçadas pela sua camuflagem.

A merda de ser homem
Como o daltonismo é provocado por genes recessivos localizados no cromossomo X (sem alelos no Y), o problema ocorre muito mais frequentemente nos homens que nas mulheres. Estima-se que 8% da população masculina seja portadora do distúrbio, embora apenas 1 % das mulheres sejam atingidas.

No caso de um indivíduo do sexo masculino, como não aparece o alelo D, bastará um simples gene recessivo para que ele manifeste daltonismo, o que não acontece com o sexo feminino, pois, para manifestar a doença, uma mulher necessita dos dois genes recessivos dd.

Como descobrir?
Teste das bolinhas ou teste de cores de Ishihara: consiste na exibição de uma série de cartões pontilhados em várias tonalidades diferentes. Esse é o método mais frequentemente utilizado para se diagnosticar a presença do daltonismo, sobretudo nas deficiências envolvendo a percepção das cores vermelho e verde. Uma figura (normalmente uma letra ou algarismo) é desenhada em um cartão contendo um grande número de pontos com tonalidades que variam ligeiramente entre si, de modo que possa ser perfeitamente identificada por uma pessoa com visão normal. Porém um daltônico terá dificuldades em visualizá-la.
Este é o teste. Passei por isso há muitos anos. Vocês, 'normais', devem enxergam um número em cada desenho acima. Já eu, não vejo nada além de dezenas de bolinhas coloridas.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Histórias de um daltônico


Bom, para quem não sabe, eu sou daltônico. É, não vejo certas cores. E confundo outras tantas. Não sei quando eu descobri que tinha este defeitinho. Só lembro da minha mãe falando que começou a desconfiar quando os lindos desenhos que eu a entregava vinham repletos de novidades. Eram árvores marrons, gramas vermelhas, nuvens roxas...

Semana passada, quando meus pais chegaram de viagem, depois de um episódio, fui despertado para escrever algo sobre esta minha doença.

Por ser preguiçoso, criei algumas estratégias. Uma delas diz respeito a toalhas de banho. Tenho que ter umas três. Uso e nem sei por onde as coloco. Ficam pelo meu quarto, pelas cadeiras da cozinha... Sempre, pelo menos uma, eu encontro. Mas, às vezes (muitas vezes) meu daltonismo afeta até na minha higienização.
Semana passada eu fui tomar banho e não sabia qual toalha era a minha. Vi que no varal improvisado na sala tinha uma toalha. Julguei ser da minha mãe. Olhei no varal do quintal, vi uma amarela desbotada, "na certa é do papai", pensei. Cheguei ao banheiro e encontrei outra toalha lá. Uma azul. De quem será esta? Não soube responder...

Nesta dúvida cruel resolvi ir dormir sem tomar banho (só para avisar, isso raramente acontece. Não vão pensar que o meu time tem influência sobre a minha limpeza).
No outro dia fui tirar a dúvida com a minha mãe.
- A senhora viu minha toalha por aí?
- Meu filho, tem uma toalha rosa ali na sala, já viu?
- Já mãe. Rosa? Não é da senhora? A minha é uma roxa.
- Não. Aquela deve ser a sua. E aquela do quintal?
- Aquela é do papai, né? Eu tinha uma amarela, mas era mais forte.
- A do seu pai tá no banheiro. Essa amarela passou a noite lá fora. Tomou até chuva.
- Eita mãe, ser daltônico é uma coisa. Nem minha toalha eu sei mais qual é...

Dois dias depois, no trabalho, minha repórter chega, fala comigo e senta ao meu lado. Após um tempo, sem se conter, ela diz:
- Poxa Jo, nem falou nada do meu cabelo.
Aí, claro, faço meu papel. Disfarço bem.
- Nooossa, que lindo o seu cabelo. Ficou bom assim, hein? O que fez nele? Cortou?
Na verdade ela tinha pintado. Mas, que culpa eu tenho? Para mim tava do mesmo jeito. O que me restou foi escutar até o final do dia ela reclamando da minha insensibilidade...
Propaganda feita pela Volks, baseada na visão dos daltônicos.

Bom, fico por aqui. Depois conto outras histórias sobre meu daltonismo. Até a próxima.