A tradição de quem mora em Santarém é aproveitar os feriados e finais de semana curtindo praia. Então, no dia 7 de setembro, eu, a morena e um casal de amigos (Bruno e Priscila, além do neném Benício) fomos para a praia do Carapanari aproveitar a tarde.
A praia é linda. O dia estava perfeito. Sol estalando, céu azul, vento suave.
Após ficarmos na água por algum tempo, fomos nos aconchegar na sombra de uma árvore que fica a poucos metros da água. Estávamos lá, comendo coxinha e amendoim, uns tomando cerveja, outros Schin Guaraná, quando, no alto e distante, vimos um avião bimotor.
- Já fui num avião desse pra São Paulo - disse Priscila.
O avião estava fazendo a volta e embicando para a nossa direção.
Por um momento eu pensei que ele viria em nossa direção. Mas ele passou ao lado, sobre a água, a uns 10 metros de onde estávamos.
Ele estava muito baixo. Ao passar em nossa frente, o Bruno ainda disse para o Benício, de dois anos:
- Dá tchau pro avião, filho. "Tchau, avião".
Mas o avião, quase em câmera lenta, continuou baixando.
- Filma, filma! - falei ao vento, ao ver a cena.
Ele estava baixando, baixando...
- Ah, agora vai querer fazer graça com esse avião, é? - disse o Bruno.
Instantes depois o avião levantou um pouco e caiu no rio.
- Bora, Jô! - gritou ele.
Nós saímos correndo como nunca havíamos corrido na vida. Eu, com 105kg, ele com mais de 90kg. A cada passo, gastávamos toda energia que tínhamos. Meu cérebro entrou em um mundo paralelo que eu não consegui raciocinar mais nada. Só corri. Ao som de Carruagem de Fogo mentalmente. Acho que uns 150 metros.
Acabou a areia, vieram as pedras. Não sentimos nada. Ao me dar conta, já estávamos nadando em direção ao avião.
Nesse ponto eu estava tão cansado que só pedi a Deus: "Senhor, que ninguém precise da minha ajuda, porque não vou conseguir ajudar ninguém".
Não tenho noção de quanto tempo durou tudo isso. Na minha cabeça parece que tudo aconteceu em câmera lenta. Segundos, minutos, não sei.
Ao olhar em volta, parece que estava todo mundo estava tão chocado com a cena que não conseguiram ter reação. Até mesmo na faixa da praia, em frente ao avião, as pessoas não se moviam.
Ao chegar no avião, estava exausto. Mal conseguia respirar. Quando segurei na asa para puxar um ar, uma mulher, saindo do avião, grita:
Com o braço livre, agarrei aquela mulher. O desespero bateu. "Eu não consigo nem respirar, como vou ajudar?".
O Bruno disse que, ao mergulhar em direção ao interior do avião, ele se deparou com o homem que, no instinto de sobrevivência, estava tentando sobreviver de qualquer maneira, nadando só com os braços. Ambos se agarraram e subiram.
Depois dos atendimentos iniciais prestados aos três passageiros, pelos médicos que estavam no Carapanari (Euler Amaral e Marcos Fortes), eles foram levados ao hospital. Ninguém se machucou.
A partir daí a luta foi para arrastar o avião para a areia.
Foi muito legal ver a solidariedade entre as pessoas. Todo mundo ajudando, cooperando (exceto, claro, vários que preferiram registrar em fotos e vídeos em vez de ajudar, mas...). Muita gente veio de lancha e jet ski oferecer ajuda. E assim o avião foi sendo 'resgatado'.
Depois de muito tempo e esforço, faltavam uns dois metros para o bico do avião sair da água. Foi só aí que os bombeiros chegaram. Quase uma hora já tinha passado.
Isso é incrível, porque se alguém realmente dependesse deles, já teria morrido. E não há qualquer justificativa. A praia é perto da cidade e o aeroporto é mais perto ainda, sendo que lá fica uma equipe do Corpo de Bombeiros justamente para quando há necessidade.
O que seria da enfermeira que não sabe nadar ou do paciente paraplégico? Será que estariam vivos
Por sorte, o piloto escolheu o dia e o local certo para voar. Porque a praia estava com muita gente. Se não fosse feriado, sendo uma quinta-feira normal, talvez nem todos teriam sobrevivido.
Mas o que me deixou mais p#@%, foi a ajuda que os bombeiros ofereceram. Quem estava no comando, não queria ajudar, mas, depois de muita insistência, ele disse que ajudaria.
Parece piada, mas sabe o que ele fez?
- Olha, vou contar até três. No três, vocês puxam a corda.
Agora, escrevendo isso, eu estou rindo. Mas, na hora, eu o xinguei muito. Fizemos todo o trabalho dele, no resgate, no auxílio às vítimas... e a ajuda dele foi contar até três. Nem na corda ele teve a coragem de pegar.



